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Cinema e Psiquiatria: Melhor É Impossível e o transtorno obsessivo-compulsivo

Melhor É Impossível (1997) como discussão de caso: TOC como hipótese, obsessões e compulsões, o que o filme acerta, o que romantiza e como é o tratamento real.

Por Dr. Felipe Guio · · 5 min

Por Dr. Felipe Guio, médico psiquiatra · CRM-MG 42.285 · RQE 21.475

Pôster do filme Melhor É Impossível (As Good as It Gets, 1997), direção James L. Brooks
Imagem: pôster brasileiro de divulgação, © TriStar Pictures; distribuição no Brasil: Columbia TriStar.

▶ Assista ao trailer (YouTube)

Série Cinema e Psiquiatria: filmes como ponto de partida para falar de saúde mental com base científica.

Aviso de spoiler: este texto revela pontos importantes de Melhor É Impossível. Se você ainda não viu o filme, talvez prefira assistir antes.

O filme em poucas linhas

Melhor É Impossível (As Good as It Gets, 1997), de James L. Brooks, acompanha Melvin, um escritor de romances que vive sozinho em Nova York. Ele tranca a porta várias vezes, lava as mãos com sabonetes novos a cada lavagem, evita pisar nas linhas da calçada e almoça sempre na mesma mesa do mesmo restaurante. Grosseiro com quase todos, ele acaba se aproximando de Carol, a garçonete que o atende.

Discussão de caso

Melvin é um personagem de ficção, e não um paciente. Diagnóstico de verdade só se faz com consulta, história completa e acompanhamento. Mesmo assim, o filme ajuda a conversar sobre um quadro comum, que muita gente esconde por vergonha.

Hipótese principal: transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

Os rituais de Melvin, o medo de sujeira e a necessidade de que tudo aconteça do mesmo jeito lembram o TOC. Mas outras questões precisariam ser avaliadas, como traços de personalidade rígidos, outros transtornos de ansiedade, depressão e uso de substâncias. A grosseria de Melvin, por exemplo, não faz parte do TOC.

O que são obsessões e compulsões

Pelo DSM-5-TR e pela CID-11, o TOC é marcado por obsessões, compulsões ou, mais comumente, pelas duas.

  • Obsessões: pensamentos, imagens ou impulsos que invadem a mente sem a pessoa querer e causam muita angústia. Exemplos: medo de contaminação ou dúvida se a porta ficou trancada.
  • Compulsões: comportamentos ou atos mentais repetidos para aliviar essa angústia, como lavar, conferir, contar ou organizar. O alívio dura pouco, e o ciclo recomeça.

Em geral, a pessoa percebe que aquilo é exagerado, mas não consegue parar. Os rituais tomam tempo e atrapalham o trabalho, os estudos e as relações.

TOC não é “mania de organização”

Gostar da casa arrumada ou da mesa em ordem é uma preferência, e costuma dar prazer. No TOC, o ritual não é escolha: vem do medo e da angústia, e deixar de fazê-lo traz muito sofrimento.

A ligação com a ansiedade

O TOC já foi classificado entre os transtornos de ansiedade e hoje tem um capítulo próprio, mas a ansiedade continua no centro do quadro. A obsessão traz o medo, a compulsão alivia por alguns minutos, e esse alívio reforça o ciclo.

O que o filme acerta

  • O sofrimento: por trás das manias, Melvin vive com medo e cansaço. O filme deixa ver que os rituais não são escolha nem capricho.
  • O isolamento: a rotina rígida o afasta das pessoas. Ele quase não sai, não tolera imprevistos e vive sozinho.
  • O impacto nas relações: a mesa no restaurante, as exigências e a dificuldade de mudar de planos afetam todos ao redor, como acontece com muitas famílias na vida real.
  • A medicação: Melvin admite que parou o remédio e, mais tarde, volta a tomá-lo. É um dos poucos filmes que tratam a medicação com naturalidade.

O que o filme romantiza

  • O amor como cura: a história sugere que a relação com Carol faz Melvin mudar. Vínculos ajudam muito, mas não substituem o tratamento.
  • O TOC como piada: muitas cenas usam os rituais para fazer rir. O humor torna o filme leve, mas pode reforçar a ideia de que o TOC é só uma esquisitice, e não um transtorno que causa sofrimento.

Como é o tratamento real

O TOC tem tratamento bem estudado. Em geral, inclui:

  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC) com exposição e prevenção de resposta: com a orientação do terapeuta, a pessoa se aproxima aos poucos daquilo que teme e aprende a não fazer o ritual. Com o tempo, a ansiedade tende a diminuir sozinha, sem a compulsão.
  • Medicação: alguns antidepressivos são usados no TOC, muitas vezes em doses diferentes das usadas na depressão. A escolha, a dose e o tempo de uso são definidos e acompanhados pelo psiquiatra.
  • Paciência: a melhora é gradual, e qualquer mudança no remédio deve ser combinada com o médico.

Quando procurar ajuda

Você não precisa se reconhecer no filme para buscar avaliação. Vale conversar com um psiquiatra se você percebe:

  • pensamentos indesejados que voltam e causam muita angústia;
  • rituais de lavar, conferir, contar ou organizar que tomam tempo e são difíceis de interromper;
  • que evita lugares, objetos ou situações por medo de contaminação ou de errar;
  • que a família precisa se adaptar às suas regras e rotinas;
  • ansiedade ou tristeza que acompanham esses sintomas.

O atendimento no consultório é para adultos. Em situação de crise, com pensamentos de se machucar, ligue para o CVV, no 188, 24 horas. Em urgência, ligue 192 (SAMU) ou, em Belo Horizonte, procure o CERSAM da sua região ou o Instituto Raul Soares (24h, (31) 3239-9937). Em outras cidades, procure o serviço de urgência psiquiátrica local ou o CAPS.

Referência: Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP (2022), capítulo “Transtorno Obsessivo-compulsivo e Transtornos Relacionados”.

Conteúdo informativo; não substitui avaliação médica.

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